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Retorno não compensa risco maior, diz estudo
Fonte: Valor Econômico | 23/04/2002

Um estudo feito com os 80 maiores fundos DI e os 80 maiores de renda fixa, realizado pela Quantum Avaliação de fundos de investimento, concluiu que existe risco de crédito privado nas carteiras e que, não necessariamente os fundos com títulos de risco maior são os que proporcionam maior retorno.

A pesquisa avaliou as carteiras relatadas nos balanços publicados pelos fundos e a classificação do risco de crédito se baseou nos "ratings" atribuídos pelas seis agências que atuam no Brasil.

De acordo com o sócio Maxim Wengert, que coordenou a pesquisa, a baixa relação entre maior risco de crédito e retorno foi notada principalmente nas carteiras dos fundos DI.

"A maioria apresentava uma carteira com ativos de qualidade de crédito melhor. Mas várias carteiras tinham risco de crédito mais elevado sem, contudo, proporcionar maior retorno", disse Wengert.

"Já nos fundos de renda fixa, apenas alguns fundos com risco de crédito maior tiveram retornos melhores. Assim, concluímos que existe, sim, risco de crédito nesses fundos e que não há evidência de que o investidor venha sendo melhor remunerado por isso", afirma ele.

De acordo com o estudo da Quantum, na média, foi encontrada uma parcela de 5,28% de títulos em fundos DI que não tinham classificação alguma; 0,22% de média qualidade de crédito, 0,09% de risco especulativos e 1,30% de outros ativos (depósitos de valores em custódia, outras aplicações, diferenciais de valores a receber etc...). Em alguns fundos, o percentual de debêntures em carteira chegava a 21%.

Outro aspecto que vem sendo questionado pelo mercado é a qualidade e adequação dos "ratings" atribuídos. Isso porque tanto BCP quanto Cemar eram empresas classificadas como de baixo risco e bruscamente foram rebaixadas para "defaut" (insolvência) ou "selective defaut".

O professor da PUC-Rio, Walter Lee Ness Jr, Lembra que as agências de "rating" desenvolve rapidamente seus trabalhos no país justamente por conta da demanda cada vez maior de "ratings" que figurassem como selos nas emissões. Mas, segundo ele, é preciso lembrar que as metodologias são complexas.

"Um problema que vejo é essa diferenciação da escala nacional com a global. Na nacional, algumas o fazem comparando um título ao outro.

Assim, por exemplo, se o risco dos títulos brasileiros for BBB, nenhuma empresa poderia ter nota melhor que esta", diz ele, explicando a metodologia de uma das agências.

"Por conta disso o "rating" deve ser algo que guia, mas é apenas uma opinião, não é definitivo, pode ser errado, para baixo ou para cima", recomenda Lee.

De acordo com um diretor de gestão de mercado, as desvantagens são maiores que as vantagens na hora de optar pela inclusão de risco de crédito privado na carteira de um fundo.

"Com os juros básicos tão altos já fica naturalmente menos interessante. Mas o problema se agrava quando vemos que os prêmios pagos são ínfimos. Veja uma Cemar, por exemplo, que oferecia 105% do CDI. Não havia sentido correr esse risco", lembra ele. "Além disso, para fazer uma avaliação minimamente eficiente do risco de crédito, não basta se contentar com os "ratings" atribuídos pelas agências de classificação, é preciso ter uma equipe concentrada somente em avaliar as empresas e emissões, é um custo que não compensa", conclui.

Esse mesmo diretor lembra que nos Estados Unidos, ao contrário do que ocorre aqui, o mercado de "high yield" (como são conhecidos os fundos focados em oportunidade de risco de crédito privado) é muito bem precificado. "Há papéis que pagam desde 2% até 50% de prêmio sobre o que é oferecido pelo governo. Além disso, lá a taxa de juros básica não é atrativa como a que temos aqui", disse.

Outro gestor diz que tanto nos EUA quanto no Brasil casos de insolvência como os da BCP e da Cemar podem ocorrer. "Isso é normal, o que não pode é o cotista não saber que está correndo esse risco", avaliou.