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Acima da média
Fonte: Revista Forbes | 31/05/2003

Num país como o Brasil, onde a instabilidade é a regra quando se fala em conjuntura econômica, obter resultados positivos no segmento de fundos de ações é uma tarefa para poucos. Mais difícil ainda é manter esse desempenho durante uma década inteira. Uma pesquisa do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getúlio Vargas analisou o comportamento dos fundos de renda variável nos últimos dez anos e revela quais alcançaram tal façanha. Dos 63 fundos que existiam em fevereiro de 1993, dez deixaram de operar e, dos que sobraram, somente quatro tiveram um rendimento acumulado superior a 50% em dólar.

O líder do ranking é o IP Participações FIA, da Investidor Profissional, com uma valorização de 347% em dólar entre fevereiro de 1993 e o mesmo mês de 2003. Isso significa que cada dólar aplicado em 1993 gerou outros US$ 4,47. Na segunda posição ficou o BBM Ações, do banco BBM, com uma rentabilidade de 198,6%. Em terceiro e quarto lugares ficaram dois fundos do antigo banco CCF, hoje incorporados ao HSBC - o CCF Ações e o CCF FIA Francial, com ganhos de 61,2% e 55,7% em dólar, respectivamente.

Como eles conseguiram ganhar tanto dinheiro? Basicamente em conseqüência de três características que todo gestor diz ter: racionalidade, disciplina e paciência. Apesar de manterem estilos de gestão diferentes, os quatro fundos têm um ponto em comum. Nunca mudaram o foco e a política de investimento.

No caso do fundo vencedor, o IP Participações, a técnica de gestão que sempre foi usada é a Botton Up, dentro da análise fundamentalista. Isto é, para escolher os papéis da carteira a equipe que trabalha para o fundo leva em consideração exclusivamente o valor das companhias. "A estratégia é investir nas empresas e não em suas ações", resume Pedro Chermont, sócio da Investidor Profissional e gestor do IP Participações.

Antes de decidir aplicar numa determinada ação, Chermont e sua equipe estudam a empresa durante um mês. Além da avaliação do histórico e do desempenho da companhia, eles mantêm conversas com seus controladores e executivos. "Em alguns casos, nosso contato é tão próximo que até indicamos os conselheiros administrativos", revela. Atualmente, 89% da carteira do fundo IP é composta por ações. Os outros 11% estão aplicados em Letras Financeiras do Tesouro Nacional (LFTs).

Entre os papéis selecionados estão os da Perdigão, da Coteminas e da Livraria Saraiva. Segundo Chermont, a fatia composta por ações varia de 70% a 95%. Outra característica do fundo é que seu portfólio contém predominantemente papéis de empresas privadas. Chermont acredita que as companhias estatais, além de estarem vulneráveis a mudanças políticas, nem sempre se interessam em maximizar valor para os acionistas.

Mas essa, claro, não é a única fórmula para o sucesso. Os gestores dos outros três fundos que fazem parte do seleto grupo não pensam da mesma maneira. Se for conveniente, eles não hesitam em investir nas empresas estatais. O BBM Ações, por exemplo, é composto por 40 papéis e o da Petrobras é, hoje, o que tem maior peso na carteira: 25,5%. O restante está distribuído em ações de setores variados, como telecomunicações, siderurgia e energia. "O fundo não costuma ter uma exposição de mais de 50% em ações", afirma Rodrigo Noel, sócio-gerente de gestão do BBM.

Sorte - Para obter uma boa performance, ele se vale da análise fundamentalista com a técnica top down. Isto é, projeta um cenário macroeconômico para o país e, a partir daí, analisa suas conseqüências sobre os diversos setores da economia. Feito isso, chega o momento de definir quais empresas dentro de cada um desses setores merecem receber os maiores aportes. A cada 15 dias, Noel e sua equipe de cinco profissionais se reúnem para reavaliar e, se necessário, mudar a carteira do fundo. Atualmente, depois do setor de petróleo, o que tem maior peso no BBM Ações é o de telecomunicações, com 20,1%. "Acreditamos que esse segmento tem grandes chances de crescer no futuro", justifica Noel.

Lúcio Graccho, diretor de renda variável do HSBC Brain, compartilha da mesma opinião. Também com base em análises fundamentalistas, investiu 37% da carteira do CCF Ações no setor de telecomunicações, especialmente em empresas de telefonia fixa. No CCF FIA Francial, 16% dos recursos estão aplicados da mesma forma. Gestor dos dois fundos desde que foram criados, ainda no banco CCF, Graccho acredita que o bom desempenho que tem obtido se deve basicamente à habilidade de fazer a seleção dos ativos. "Esse é o diferencial da minha equipe, que é bastante experiente no mercado."

Além da rentabilidade, outros fatores também sinalizam uma gestão apropriada e explicam a boa performance de um fundo. "O poupador deve verificar se, no geral, todos os fundos da empresa gestora têm um bom desempenho", diz Maxim Wengert, sócio da Quantum, empresa especializada em avaliação de fundos de investimentos. Outra informação relevante, lembra ele, é a experiência do responsável pelas aplicações do fundo. Wengert afirma que há três maneiras para se ter um retorno excepcional: o timing (compra e venda dos papéis na hora certa); a agressividade (aproveitar os momentos de alta da bolsa para obter maiores retornos e, na baixa, perder menos); e a seletividade (escolher ações que ofereçam boa valorização). "Com base na análise dessas três variáveis, fica fácil saber se o objetivo do fundo está sendo respeitado pelo gestor ou se ele está ganhando dinheiro por pura sorte", afirma Wengert.

Ele explica que os fundos que conseguem boa rentabilidade graças à sorte se destacam apenas nos períodos de queda da bolsa. Isso porque os gestores deixam grande parte dos recursos aplicados em renda fixa, permanecendo acima da variação quando a bolsa cai. "Os fundos com esse desempenho desaparecem numa espécie de seleção natural", diz Wengert. Os fundos que conseguem superar seus benchmarks com freqüência têm mais chances de resistir à passagem do tempo. Tomando por base esse raciocínio, os quatro fundos líderes da pesquisa da Fundação Getúlio Vargas têm tudo para sobreviver - e bem - por mais alguns bons anos.