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A escolha certa
Fonte: Valor Econômico | 06/01/2006

Depois de três anos seguidos de alta da bolsa e um ganho acumulado de 196,9% do Índice Bovespa, nem todos os papéis ainda têm muito fôlego para subir. Portanto, a seleção certa e criteriosa das ações se torna indispensável para uma aplicação bem-sucedida. É nesse momento que os fundos de ações que buscam os melhores papéis, sem se limitar a replicar algum índice da Bovespa (os chamados fundos ativos ou os diferenciados), ganham espaço. Com base em análises aprofundadas dos fundamentos de cada empresa - e não na simples compra e venda frenética de ações seguindo as ondas do mercado - é que alguns fundos ativos conseguiram em 2005 rendimentos de mais de 50%, enquanto o Índice Bovespa, por exemplo, subiu 27,71%.

Um estudo da consultoria Quantum reforça a idéia. Ele mostra que a maioria dos ganhos dos fundos ativos acima dos índices vem da seleção certeira das ações. Com essa estratégia, eles conseguem retornos até 4,5% ao mês acima do Ibovespa. Já tentar acertar a hora de comprar ou vender uma ação (o chamado "market timing") não é garantia de retorno.

Como o nome diz, os fundos de ações ativos possuem liberdade para aplicar em papéis que não fazem parte dos índices de bolsa, que são usados somente para medir seu desempenho. Na expectativa de descobrir como essas carteiras obtêm ganhos, a Quantum fez um estudo com 15 fundos ativos, nos últimos dois anos, ao qual o Valor teve acesso. O estudo separou a forma de investir dos fundos em três estratégias - a escolha das ações (seletividade), "market timing" e a prática de assumir posições acima do patrimônio líquido (alavancagem).

O resultado mostra que os maiores ganhos acima do Ibovespa ocorrem graças à escolha correta das ações. Entre os 15 fundos, o que obteve o pior resultado com seletividade conseguiu em média um ganho 0,44% ao mês acima do Ibovespa nos últimos dois anos. Já o mais bem-sucedido rendeu, em média, 4,49% ao mês acima do Ibovespa, nada mau se comparado a uma taxa Selic de 18% ao ano. Além de representar a principal estratégia dentro de um fundo, o resultado do estudo demonstra que a seletividade tem sido usada de forma correta, diz o sócio daQuantum Maxim Wengert.

"A gestão no Brasil está super desenvolvida e os gestores sabem escolher as melhores ações", diz Wengert. Isso demanda um estudo detalhado sobre as empresas. Não por acaso, as assets estão encorpando suas áreas de análises.

Apesar do nome (ativos) indicar um certo dinamismo, o "market timing" contribui pouco para ganhos adicionais ou pode até representar perdas. O fundo que mais ganhou comprando e vendendo no melhor momento teve um ganho médio mensal de apenas 0,68% acima do Ibovespa. E houve fundo que chegou a perder 1,01% ao mês do Ibovespa, por errar a hora de investir - comprando na alta ou vendendo na baixa. "É muito difícil um gestor acertar o momento sempre", diz Wengert. "Além da análise fundamentalista para escolher uma boa ação, precisa de uma boa dose de sorte."

Aumentar o risco e a chance de ganhos com alavancagem também não é o forte dessas carteiras. O fundo que teve o melhor desempenho com essa estratégia perdeu em média 0,54% ao mês frente ao Ibovespa. Já o pior viu seu retorno ficar 3,07% abaixo do Ibovespa, mensalmente. "Mesmo os fundos mais agressivos não alavancam por uma questão de cultura do brasileiro, que não está acostumado com bolsa, muito menos com perder em ações", diz Wengert.

A estratégia de alguns dos melhores fundos de ações ativos comprova o estudo. O sucesso do Safra Private - o fundo ativo com o maior retorno em 2005 (52,25%), pelo levantamento daQuantum - veio cerca de 80% da seleção dos papéis e 20% de comprar e vender no melhor momento, afirma o gestor Valmir Celestino, do Banco Safra. Apesar de permitir alavancagem, a carteira não usou a estratégia sequer uma vez no ano passado. O argumento para isso, segundo Celestino, é que a alavancagem eleva o risco para um nível que o investidor brasileiro, mesmo aquele mais familiarizado com renda variável, ainda não se sente preparado para assumir. Ele lembra que, independente do momento de compra, se a escolha da ação estiver embasada em critérios fundamentalistas, trará ganhos.

No Votorantim Performance, da Votorantim Asset Management, segundo melhor retorno, de 47,55%, a receita é a mesma - 60% dos ganhos vieram de seletividade, 30% de "market timing" e apenas 10% de alavancagem.

Gestores trocam 7,3% da carteira a cada mês, em média

Ser ativo na gestão de recurso significa ficar pulando de galho em galho. É isso que mostra o estudo da Quantum sobre os fundos de ações ativos. Entre as 15 carteiras analisadas, verificou-se que, comprando e vendendo papéis, elas trocam, em média, 7,3% do patrimônio líquido, mensalmente. O fundo que gira mais a carteira substitui só 15% do patrimônio líquido, mas 11 trocam menos de 10%. O percentual baixo surpreendeu até o responsável pelo estudo, Maxim Wengert. "Imaginava que os fundos que têm liberdade para aplicar em qualquer papel da bolsa trocassem no mínimo 10% do patrimônio por mês", diz Wengert. A importância da seletividade na gestão brasileira, para ele, é uma explicação para esse baixo nível de trocas.

"O gestor compra uma ação depois de uma análise aprofundada dos fundamentos da empresa e para retorno no longo prazo, por isso, tem certeza do que fez e não fica mudando", conclui Wengert. O estudo mostra, no entanto, que existe uma correlação entre o retorno e o giro da carteira - as melhores performances são dos fundos que mais trocam de papéis.

Como há perspectivas da bolsa não subir de forma homogênea este ano, os gestores estão otimistas, acreditando que os fundos ativos devem se destacar. O gestor de renda variável da Credit Suisse Asset Management - que possui três fundos ativos entre os melhores de 2005 -, Inácio Ponchet, lembra que, enquanto há perspectivas do Ibovespa subir entre 20% e 22% este ano, alguns papéis têm potencial para subir mais de 50%. Os fundos que procuram seguir o Ibovespa renderam, em média, menos que as carteiras ativas nos últimos quatro anos porque o indicador sofreu muito com o desempenho ruim das teles.

Os investidores já perceberam as vantagens de estar numa carteira que tenha uma gestão de fato. Nos últimos anos, os fundos ativos ou com estratégias diferenciadas (de dividendos, "small caps" ou valor absoluto) captaram muito mais que os passivos, diz Walter Mendes, do Itaú. E, mesmo nas categorias diferenciadas, a seleção é importante, diz ele, lembrando que, em 2005, entre as "small caps", Net PN subiu 150,28% enquanto Ultrapar PN caiu 23,81%.

Para este ano, as principais apostas entre os fundos ativos que foram bem em 2005 são ações de mineração, bancos, consumo, varejo, petróleo e energia elétrica. Além das novas ações que, segundo Valmir Celestino, do Safra, significaram bons investimentos.

O Credit Suisse não vê, porém, as ações de consumo como uma boa oportunidade. O motivo, segundo Ponchet, é que a economia crescerá de uma base muito pequena registrada em 2005. Já Fábio César, gestor da Votorantim Asset, acredita que, com o amadurecimento do segmento de fundos ativos, será natural um aumento das operações com alavancagem. (DC)