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Nos fundos sofisticados, a matemática é que decide
Fonte: Gazeta Mercantil | 01/03/2006

Os modelos matemáticos e estatísticos ganham cada vez mais espaço no mercado brasileiro de gestão de ativos financeiros. Essas ferramentas - que identificam as oportunidades de compra e venda de papéis - até pouco tempo atrás eram usadas apenas por algumas áreas dos bancos, como tesourarias e o varejo de alta renda, e vêm se popularizando, diz o sócio da consultoria RiskOffice, Fernando Lovisotto.

Hoje, são 12 os fundos que adotam exclusivamente estratégias quantitativas para a tomada de decisão, com patrimônio líquido de R$ 430,6 milhões, segundo dados da Quantum - Avaliação de Fundos de Investimento. No início de 2005, esse segmento administrava pouco mais de R$ 167 milhões.

A mais recente investida veio do BankBoston, que lançou no mês passado o primeiro fundo quantitativo para distribuição na rede de agências. Em pouco mais de um mês, o Boston Expert captou um volume superior a R$ 15 milhões.

Nas carteiras puramente quantitativas, as operações são automáticas e não sofrem interferência do gestor. Em outras modalidades de fundos, esses modelos também são utilizados, mas apenas como subsídio ao gestor, que é quem toma a decisão final.

Nos fundos sofisticados, a matemática é que...

As 12 carteiras quantitativas do mercado reúnem patrimônio superior a R$ 430 milhões. Primeiro fundo quantitativo a ser distribuído no varejo, o Boston Expert compra cotas de uma outra carteira do BankBoston, o Boston Eagle Quant, aberto em 2001 apenas para clientes pessoa física de alta renda. O fundo já acumula patrimônio superior a R$ 15 milhões, dos quais R$ 10 milhões foram levantados nos últimos dez dias. A meta, segundo a superintendente de Produtos de Investimentos do banco, Mônica Leopoldino, é atingir R$ 40 milhões em dois meses. "Notamos uma procura grande por informações sobre o fundo, que é oferecido como mais uma opção de investimentos."

O fundo-mãe (que aplica em futuros, moedas e ações) adota modelos matemáticos para a análise da variação dos ativos e também de indicadores da economia, na tentativa de encontrar um padrão de comportamento e prever suas chances de repetição. A partir dos resultados, o gestor monta as posições de compra e venda. O modelo do Boston começou a ser desenhado há cinco anos e contou com a expertise da equipe de gestão do banco, diz Mônica.

Para Charles Ferraz, superintendente executivo da BankBoston Asset Management (BAM), os instrumentos de análise quantitativa permitem tomadas de posição mais objetivas e independentes da opinião do gestor.

"Com a redução do juros e, por conseqüência, dos prêmios dos ativos, os modelos matemáticos tornaram-se importantes para otimizar a relação risco/retorno das carteiras", argumenta o vice-presidente sênior de Fundos de Investimento do WestLB, Mário Carvalho. O banco de origem alemã tem três fundos multimercados e todos eles adotam um modelo matemático de "cruzamento de médias" para identificar as tendência dos ativos. A partir da análise de dados estatísticos, o modelo define os limites de compra e venda de ativos.

Para Carvalho, o mercado é bastante promissor para esses fundos. Segundo ele, nos Estados Unidos, de um total de US$ 1 trilhão de recursos em hedge funds, entre US$ 50 bilhões e US$ 100 bilhões estão alocados em fundos com estratégias quantitativas. No mercado brasileiro, esses fundos não chegam a 1% do setor.

Na visão do sócio da consultoria RiskOffice, Fernando Lovisotto, há pelo menos dois argumentos favoráveis às estratégias quantitativas. Um deles é que esses fundos não têm o "viés subjetivo", ou seja, não sofrem interferência dos gestores na tomada de decisão - o próprio modelo emite ordens de compra e venda de ativos.

Outro atrativo está na oportunidade de diversificação do investimento, já que cada fundo adota um modelo próprio e opera em mercados diferentes. Essa característica é apontada pelo consultor como um dos motivos pelos quais os fundos quantitativos têm comportamentos tão distintos, apesar de serem baseados em modelos matemáticos - isso tem se refletido na performance das carteiras, destaca.

Paulo Siqueira, gestor da Zoom Asset Management, aposta nos modelos estatísticos para buscar oportunidades de ganhos com distorções de preços no mercado de ações. A gestora abriu neste mês para captação o fundo Singular Quant, lançado em julho do ano com recursos próprios. "O mercado de fundos quantitativos é bastante promissor. É um negócio novo, pouco explorado."

Ferramenta de apoio

Os modelos matemáticos e estatísticos são ainda usados no mercado de gestão como uma ferramenta de subsídio à decisão do gestor. É o caso da Unibanco Asset Management. Na gestora, segundo o diretor Paulo Vaz, as análises quantitativas são usadas em fundos de arbitragem para identificar distorções de preços e sugerir posições. Mas a decisão final é do gestor, com base em análises fundamentalistas da economia, empresas, setores.

Segundo Lovisotto, diferentemente de fundos estrangeiros (que chegam a atuar em mais de 100 mercados, potencializando as chances de acertos), a falta de liquidez de alguns mercados e o universo menor de ativos no Brasil podem retardar a expansão do segmento. Maxim Wengert, sócio da Quantum, diz que o sucesso desses fundos depende de profissionais com alto conhecimento técnico e experiência no mercado financeiro. "São duas etapas: criar um modelo e fazê-lo funcionar."