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Multimercados, nova geração
Fonte: Valor Econômico | 17/05/2006

Os fundos multimercados brasileiros passam por uma fase de mudanças e maior maturidade. Com a atual exuberância do mercado - a captação acumulada no ano já chega quase R$ 10 bilhões -, muitas carteiras têm atingido rapidamente um tamanho que leva os gestores a rejeitar novas captações, com medo de o elevado volume comprometer as estratégias. Na maioria dos casos, essa interrupção para aportes é acompanhada pela criação de novos fundos, em geral mais agressivos e com carência para saques. Essa transformação revela o sentimento dos gestores de que já há investidores preparados para embarcar em aplicações mais sofisticadas.

Segundo levantamento da consultoriaQuantum com todos os fundos multimercados do setor, apenas neste ano, 13 interromperam a captação - a maior parte ligados a gestoras independentes -, elevando o total de carteiras que não aceitam novas aplicações para 25. No ano passado, quando o mercado começou a retomar a curva de alta de rendimentos e de aplicações, seis fundos já haviam fechado. De 2002 a 2004, quando os ventos não foram favoráveis a essas aplicações, apenas seis não aceitavam novos recursos.

Atualmente, os fundos fechados reúnem um patrimônio de R$ 9,17 bilhões, segundo Maxim Wengert, sócio daQuantum. A lógica é evitar que a carteira fique grande a ponto de dificultar uma gestão ágil, que inclua papéis de menor liquidez, explica ele.

Outro motivo que impulsiona o fechamento dos fundos é o risco de, num momento negativo, ondas de saques comprometerem as estratégias, deixando prejuízos para os cotistas que permanecem na carteira, diz Alexandre Maia, da GAP Asset Management, que fechou um fundo neste ano e abriu outro com a mesma estratégia, mas com carência de 30 dias. "Certamente verificamos um processo de avanço do mercado brasileiro, pois a carência significa que o investidor passa a conseguir eximir uma preocupação com o curtíssimo prazo", diz ele. "É um sinal claro de amadurecimento de todo o setor e melhor compreensão dos fundos multimercados."

Essa é uma tendência dos fundos dessa categoria no mundo todo, explica Delano Franco, diretor-presidente da gestora Mellon Global Investments do Brasil. "Esses fundos têm um limite de tamanho para serem eficientes." Se crescem demais, podem perder oportunidades boas em ativos de menor liquidez. Na regra geral, diz Franco, quanto menos líquidos os mercados em que o gestor opera, menor tem de ser o patrimônio da carteira.

A forte procura por multimercados verificada nos últimos meses faz com que muitas carteiras surjam com objetivos de patrimônio definidos e logo fechem, diz Marcio Fontes, gestor da BNP Paribas Asset Management. "São fundos com estratégias limitadas, que atuam em mercados de liquidez baixa, como é o caso dos long/shorts que precisam alugar ações, ou aqueles em que o gestor não tem condições de manter a qualidade da gestão com um volume de recursos muito grande", diz ele.

Mas a liquidez dos mercados hoje é bem melhor do que já foi num passado, diz Franco, da Mellon. Isso permite a alguns fundos reabrir para captação. A gestora SDA reabriu ontem o multimercado que havia fechado no início deste ano, depois de reavaliação da liquidez dos ativos da carteira. Outro caso é o fundo Gávea Brasil, da gestora Gávea Investimentos, do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, que chegou a aceitar novos aportes, mas está novamente fechado. Comercialmente, também é uma boa estratégia fechar fundos e abrir novos. Gestores confessam que causa boa impressão junto aos investidores dizer que o primeiro fundo fechou por excesso de procura.

José Alberto Tovar, da gestora ARX Capital, fechou três fundos multimercados neste ano, mas diz que também poderá reabri-los, segundo reavaliação trimestral da carteira, conforme a liquidez do mercado. "O problema é que, se ficarmos grandes demais, mesmo que continuemos fazendo certas operações, no final, elas representarão pouco ganho extra para o fundo", explica.

A boa aceitação dos fundos com carência revela uma maturidade maior dos investidores, que entendem ser isso fundamental para não comprometer a estratégia das carteiras, diz Mário Van Erven, sócio da Fides Asset Management. "Isso é saudável para todo o mercado e revela um amadurecimento do aplicador." A gestora acaba de lançar um multimercado com estratégia mista - long/short e operações com opções de juros e câmbio - que é mais conservador. A asset também pretende fechar essa carteira e abrir outra mais agressiva quando ela crescer demais, como fez com o fundo long/short.

Aplicações ganham prazo de carência e ficam mais agressivas

A nova geração de fundos multimercados têm características bastante comuns entre si. Segundo Gustavo Castelo Branco, superintendente de alocação de ativos da Mellon Gestão de Patrimônio, todas as 15 últimas carteiras lançadas com a mesma estratégia de fundos mais velhos têm carência e nove delas são mais agressivas do que as anteriores.

A nova safra de multimercados que descende dessas carteiras fechadas está mais preparada para aceitar aportes maiores e crescer mais, diz. "Faz parte do plano dessas gestoras fechar o primeiro fundo e abrir um segundo mais agressivo, que dê mais flexibilidade ao gestor para implementar livremente sua estratégia."

Entre as gestoras que adotaram esse caminho está a Fides Asset Management. No ano passado, a instituição fechou seu fundo de arbitragem (long/short), com carência de dez dias para saques, e abriu o Long/Short Plus, que é mais agressivo, mais volátil e tem 40 dias de carência. O fundo é voltado para clientes mais sofisticado, com maior apetite a risco, explica Mário Van Erven, sócio-diretor da Fides. No entanto, a forte demanda dos investidores fez a gestora fechar a captação também do Long/Short Plus em apenas dois meses.

Van Erven explica que isso foi possível porque o mercado, em geral, capta muitos recursos e cresce com força atualmente. Portanto, o investidor tem de ficar atento para quando esses fundos chegam ao mercado, porque, se atrasar a decisão de investir, poderá ser tarde demais, completa o executivo. "É uma tendência de procura por esses fundos diferenciados que deverá crescer à medida que a taxa de juro continuar a cair."

Na visão de Castelo Branco, da Mellon, se o ambiente financeiro continuar favorável aos multimercados, será cada vez mais freqüente ver fundos fecharem temporariamente para captação. "Há muitos outros gestores que estão para fazer isso ainda."

Segundo Maxim Wengert, sócio da consultoria Quantum, dos 18 fundos multimercados lançados neste ano, nove têm prazo de carência diferenciada. Mesmo que seja a metade do total, é um ritmo de adoção de carência nunca verificado antes, diz Wengert. Esses fundos com carência costumam permitir o saque no dia seguinte, mas cobram taxa de até 10% nesses casos.

A aceitação desses produtos com prazo diferenciado para resgates pelos investidores brasileiros, contudo, só vai ser colocada à prova num momento negativo para os fundos, diz Castelo Branco. "Resta saber se os investidores tenderão irão permanecer na aplicação e confiar nas estratégias de gestão ou se também deixarão as carteiras após a carência." No passado, em tempos negativos para os fundos multimercados, carteiras chegaram a reduzir a 10% do patrimônio em poucos meses com a fuga de investidores.