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Corrida de Titãs
Fonte: Valor Econômico | 30/05/2006

Com grande parte de seus R$ 850,7 bilhões em recursos administrados nas mãos de poucas instituições ligadas a gigantes financeiros, o setor de fundos de investimento ganhou um traço adicional de concentração após os recentes negócios na área bancária. As aquisições do BankBoston pelo Itaú e do Pactual pelo suíço UBS provocaram alguns rearranjos no ranking entre os dez maiores administradores, que já abocanham uma fatia de 83,4% do mercado, ante os 78% de 2000.

Para o investidor, isso significa a redução do número de opções na hora de escolher onde aplicar seus recursos e menor poder de barganha também para brigar por custos. O atenuante é que, nas movimentações mais recentes das peças desse tabuleiro, as instituições envolvidas têm especialidade no atendimento da alta renda, público que costuma ter acesso a carteiras com gestão diferenciada, conforme aponta o diretor geral da Roland Berger, Paul Gruppo. "Os ativos mudaram de dono sem modificar dramaticamente o panorama da área de fundos, que já vinha fortemente concentrado, espelhando o que ocorre com o próprio setor bancário."

O Itaú, que vinha alternando o segundo lugar do setor com o Bradesco, agora se firma na posição, com ativos de R$ 151,6 bilhões (incluindo BankBoston e Intrag), atrás apenas da BB DTVM, com R$ 169,7 bilhões, segundo dados de abril da Associação Nacional dos Bancos de Investimentos (Anbid). Nas primeiras posições ainda ficam Bradesco, com R$ 127,4 bilhões, já considerando os recursos do Banco do Estado do Maranhão (BEM), adquirido em 2004, seguido pela Caixa Econômica Federal, com R$ 49,8 bilhões e HSBC, com R$ 44,7 bilhões. Juntos, os 20 maiores administradores detêm nada menos do que 98,2% do setor.

"A diminuição da quantidade de competidores é ruim para o consumidor, que não vai encontrar concorrência na hora de selecionar o banco, o gestor", diz o presidente da Austin Rating, Erivelto Rodrigues. "E com as margens diminuindo na área de gestão de recursos de terceiros por força dos institucionais, sobra para o varejo pagar a conta."

Conforme exemplifica, enquanto os grandes fundos de pensão conseguem custos entre 0,2% e 0,3% ao ano, o pequeno investidor paga de 2,5% a 3% ao ano na melhor das hipóteses. As taxas de administração representam uma fonte importante de receitas para o setor que, no ano passado, arrecadou cerca de R$ 8 bilhões, o equivalente a 1% do patrimônio dos fundos. E, na medida em que os juros caiam, maior peso terá essa cobrança na rentabilidade das carteiras.

"A indústria de fundos já era e continua concentrada e não vejo nesse processo o aumento das taxas de administração", diz Nelson Rocha Augusto, presidente da BB DTVM, que lidera o ranking de administradores. "Em 2003, a BB DTVM tinha 16% do mercado, hoje tem 20% e no mix de produtos as taxas até caíram."

O executivo considera que a vinda de instituições estrangeiras para o Brasil - com a chegada da Legg Mason, após a aquisição das atividades de gestão de recursos do Citigroup no mundo, e o regresso do UBS Brasil à área, com a compra do Pactual - adiciona uma competição saudável para todo o mercado, que terá de aprimorar a sua oferta para atender a um investidor que tende a ficar cada vez mais exigente. "Está todo mundo (do setor) se posicionando, pois esse é um sinal claro de que o Brasil está no radar como país importante no negócio de gestão de recursos de terceiros."

Com a adição do selo mundial UBS à sua marca, o Pactual deixa de ser estritamente um competidor local para expandir suas operações para além das fronteiras, chegando a investidores da América Latina e até de outros países onde o UBS tem presença. Segundo o sócio-responsável pela Pactual Asset Managment, Rodrigo Xavier, o cliente brasileiro também passará a ter acesso mais direto a opções de investimentos fora do país. "A expectativa é ter uma linha complementar e atingir uma base mais abrangente localmente também."

Xavier comandará a UBS Pactual Asset junto com Marcelo Calim e o suíço Neil Stiefel, que vem tendo aulas intensivas de português e que desembarcará no país tão logo a operação seja aprovada pelo Banco Central (BC).

Mesmo quem está de fora das últimas movimentações na área bancária não fica alheio à musculatura que os concorrentes vêm ganhando. "Há mudanças nas forças de competição e estamos antenados", diz o vice-presidente da BNP Asset Management, Marcelo Giufrida, sem explicitar que oportunidades podem surgir. "Se o Pactual adiciona um parceiro internacional e aumenta a concorrência direta, o BankBoston é um grande estrangeiro que desaparece."

O ABN Amro Real, por sua vez, quer também aproveitar a sua presença global para dar o devido peso à área de private banking e de gestão de recursos de terceiros no Brasil. "O banco está numa posição abaixo do seu potencial", diz o responsável pela área de Advisory da ABN Amro Asset Management, Mailson Hykavei, referindo-se às diferenças de posição da instituição no ranking bancário e de administração de recursos.

O ABN é o quinto maior banco do país em depósitos, com R$ 45,4 bilhões - dados de dezembro do Banco Central (BC) -, com 6,6% de participação no mercado, mas ocupa o oitavo posto como administrador de recursos, com R$ 35,5 bilhões no fim de abril, ou 4,1%.

Segundo Hykavei, a área de Advisory (assessoria financeira) da instituição foi reestruturada para oferecer aplicações de outras instituições. A criação de fundos de fundos já foi um primeiro passo e outros instrumentos como cotas de fundos de recebíveis, certificados de recebíveis imobiliários (CRI) e até de "project finance" passaram a fazer parte da prateleira.

A conta da competição só não é mais desfavorável porque, no ranking dos 20 maiores, a Mellon Serviços Financeiros, que administra boa parte das carteiras das gestoras independentes, ocupa o 10º lugar, com R$ 22,8 bilhões, ou quase 3% da porção que cabe aos primeiros nomes.

"O sistema financeiro está se sofisticando e, mesmo passando por um movimento de fusões e aquisições, há um fenômeno importante em paralelo que é o desenvolvimento do mercado de gestão independente, o que oxigena o setor como um todo ao ampliar as escolhas do investidor", diz Delano Franco, diretor da Mellon Global Investments, o braço de gestão de recursos de terceiros do Mellon Financial Group no Brasil.

A estrutura da Legg Mason já chegou a ser apontada por especialistas como o mundo ideal: a separação entre atividades de gestão e de distribuição de recursos - embora o Citigroup tenha se tornado o acionista individual de maior participação na gestora, com uma fatia de 30% do negócio. O entendimento é que isso evita conflitos tais como o gerente da agência bancária oferecer apenas fundos da "asset" ligada ao próprio conglomerado.

"Antes, a tendência era só ter fundos de gestores ligados à instituição bancária e agora vemos uma tendência clara para a plataforma mais aberta", diz Franco. "Os investidores terão acesso a outros estilos de gestão: isso claramente começa pelo private, pela camada mais alta, vai se permeando pela segmentação intermediária até chegar à agência comum, o que amplia o leque de opções para todo mundo."

Esse conceito chamado de arquitetura aberta já existe no Brasil em diversas instituições financeiras, mas é ainda restrito aos segmentos de alta renda e "private banking". Para Maxim Wengert, sócio da Quantum Consultoria, especializada na avaliação de fundos de investimento, esse mecanismo deve crescer com o amadurecimento do investidor. "Isso virá com o processo de estabilidade econômica, queda de taxa de juros, e a conseqüente procura por investimentos de longo prazo e mais sofisticados."