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Máquinas de ganhar dinheiro
Fonte: Estadão - Invetimentos | 01/09/2006

Para ganhar dinheiro no mercado financeiro, principalmente no curto prazo, não basta ser bem informado. É preciso achar o momento certo de comprar e vender e ter sangue-frio. Na turbulência financeira iniciada em maio, por exemplo, quem ignorou a histeria e manteve a posição na Bolsa pode ter ganho: o índice Bovespa subiu o,27% em maio de 1,22% em junho. Quem não resistiu ao sobe-e-desce e saltitou de um investimento para outro,talvez tenha perdido bastante dinheiro.”O pulo do gato é acertar o timing, manter a calma e olhar para os indicadores que realmente importam”, ensina o diretor-executivo de Fundos de Investimentos do Banco WestLB do Brasil, Aristides Jannini. Noção de tempo perfeita, ausência de emoções e poder de concentração. Parece trabalho para um computador-e, em alguns casos, é mesmo.

Diante da necessidade de captar e processar montanhas de dados, para detectar os melhores ativos e o certo de agir, as instituições financeiras usam todos os recursos possíveis. Nos anos 90,contrataram físicos, matemáticos e meteorologistas. Hoje, usam até redes neurais –sistemas computacionais capazes de aprender pelo erro, um passo em direção à (ainda distante) inteligência artificial. A nova realidade criou um tipo de estratégia de gestão de carteiras de investimentos chamada quantitativa.

A meta é estabelecer as prováveis oscilações dos preços, a relação entre as cotações e as tendências para diversos ativos. No Brasil, porém a baixa liquidez de cada mercado torna a estratégia quantitativa viável somente para fundos multimercados, aqueles que direcionam recursos para diversos tipos de aplicações.

Nesses multimercados quantitativos, o trabalho vai além de analisar informações macroeconômicas e setoriais para escolher as melhores aplicações. É preciso monitorar os modelos estatísticos, atualiza-los quando necessário e ter confiança neles – o suficiente para deixar a decisão do que comprar e de quando comprar exclusivamente por conta das equações inseridas no programa do computador, explica o professor Marcelo Gutterman, do Ibmec-SP.

Software, um parceiro difícil

Para o leigo, pode parecer muito simples ou ainda criar a impressão de que a máquina é quem decide, mas a vida do gestor desse tipo de fundo não é nada fácil. Diante de uma série de indicadores,que em certas ocasiões influenciam fortemente os preços e em outras nem são observados por analistas e investidores, é difícil achar que tal fator terá impacto no mercado financeiro no curto ou longo prazo. É preciso descobrir quais dados são relevantes, quais serão usados na tomada de decisão, qual a relação entre eles e atribui-lhes o peso adequado, conta Jannini, que lidera uma equipe de 43 pessoas, sendo três voltadas exclusivamente a estratégia quantitativas.

Alguns especialistas defendem como grande vantagem dessa estratégia a capacidade de expurgar toda subjetividade da decisão de investimento. Mas esse não é seu único ponto positivo.

Estratégias quantitativas criam um diferencial de gestão, ao seguir tantos parâmetros quanto forem considerados úteis. Tradicionalmente, os mercados tendem a olhar para os mesmos referenciais, mesmo diante de um cenário de queda de prêmios de risco e da volatilidade.

Além disso, esses fundos são capazes de acompanhar milhares de ativos em diversos mercados ao mesmo tempo, algo humanamente impossível. Para completar, esses fundos teriam, pelo menos na teoria, uma análise mais acurada do risco.

Apesar desses pontos positivos, no mercado brasileiro os fundos quantitativos não tem muito a exibir em desempenho. O especialista Maxim Wengert, sócio da Quantum Avaliação de Fundos de Investimentos, verificou que apenas dois desses fundos, nos últimos 12 meses, conseguiram superar o retorno médio da indústria de fundos multimercados, de 20,48%. Além disso , os quantitativos apresentaram volatilidade – um importante indicador de risco – muito mais elevada.

Por que então, nos Estados Unidos esses fundos se tornaram populares e alcançaram alto desempenho? Lá, eles superaram, em média, seus benchmarks nos últimos três anos, e alguns quintuplicaram de tamanho. Um estudos publicado em 2005 por The Financial Review mostrou que os fundos índices que utilizam estratégias quantitativas superaram suas metas, na média, entre 1981 e 2000.

Poucos ativos e curto prazo

No Brasil, a Quantum detectou 12 fundos quantitativos, cujos ativos somam R$ 430 milhões, volume reduzido quando se observa o patrimônio líquido total do setor de fundos, de R$ 840 bilhões.

Um motivo parece estar nas características do mercado local, que concentra liquidez em menos ativos e opera com visão de curto prazo, ao contrário do norte-americano, na opinião do professor Fábio Paz, da disciplina Instrumentos Derivativos e Métodos Quantitativos Aplicados à Finanças, do Ibmec de São Paulo. “ A eficácia de um método exclusivamente quantitativo exige diversidade de ativos com liquidez”, afirma ele.

Independente de características do mercado brasileiro, há diversos pontos questionáveis nas estratégias quantitativas. Como o nome diz, elas desprezam questões não-quantificáveis importantes, como o tipo de gestão de uma companhia.

Outro problema é que modelo estatístico desenvolvido com tanto esforço corre o risco de perder valor de uma hora para outra. “ Isso acontece quando um evento altera parâmetros do mercado, como fez a crise russa em 1998”, explica Paz. “Após a crise asiática, diversos fundos quantitativos sumiram do mapa”, lembra.

Por fim, há questões que, no horizonte visível, continuarão fora desses modelos, porque são subjetivas. “É impossível fazer um modelo que antecipe as decisões de política monetária do Banco Central”, afirma o superintendente de estratégias quantitativas da administradora de recursos do BankBoston, Gustavo Aleixo. Ao que parece, ainda temos muito a ensinar aos nossos computadores.

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