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Um cérebro de R$ 1 bilhão
Fonte: Isto é - Dinheiro | 20/09/2006

Quanto vale um cérebro financeiro privilegiado? Nas últimas semanas, à medida que vazavam para o mercado informações sobre a sigilosa negociação para a compra da gestora de recursos Hedging-Griffo pelo Credit Suisse, descobriu-se que o preço pode estar na casa do bilhão. Analistas estimam que, para incorporar a maior administradora independente de fundos do Brasil, o banco multinacional terá de desembolsar algo entre R$ 700 milhões e R$ 1,2 bilhão, dependendo dos ativos que entrarem no pacote. As quantias variam conforme a fórmula usada para fazer a conta – sempre partindo do patrimônio de R$ 14 bilhões hoje administrado pela Hedging-Griffo. Num ponto, porém, há amplo consenso. Se uma oferta da ordem de R$ 1 bilhão está sendo posta sobre a mesa, o alvo é Luis Stuhlberger, sócio e estrategista da HG, considerado por muitos o melhor gestor de fundos do Brasil. Sua cabeça está a prêmio, no melhor sentido da expressão, há pelo menos dois anos e já motivou investidas de outros bancos estrangeiros, como o Goldman Sachs. Depois da compra do banco Pactual pelo suíço UBS, esta grife brasileira de gestão de fundos e private banking virou peça-chave para o reequilíbrio de forças no xadrez dos bancos de investimento. E um complemento sob medida para a operação brasileira do Credit Suisse – poderosa em áreas como emissões de ações e operações de renda fixa, mas relativamente pequena em gestão de recursos.

Na semana passada, um administrador de fundos de uma instituição brasileira disse à DINHEIRO que está contratando um executivo da Hedging-Griffo e ouviu dele relatos sobre uma auditoria pré-venda (due diligence) em curso na companhia. Hoje com 300 funcionários, sendo quatro sócios controladores e 46 acionistas minoritários, a HG tem uma estrutura bastante grande pelos padrões do setor. Nem toda ela, porém, seria incorporada ao Credit. “Eles não precisam do back office (retaguarda operacional) e dificilmente vão ficar com a corretora, porque têm tudo isso ‘em casa’”, observa esse mesmo gestor, que pede para não ser identificado. O que interessa é Stuhlberger e sua equipe, o rico portfólio de fundos por eles administrado e seus fiéis clientes endinheirados.

De acordo com levantamento da consultoria Quantum, a Hedging-Griffo tem hoje 194 fundos em sua prateleira, com patrimônio líquido de R$ 9,58 bilhões. Desse total, 158 são multimercados, que somam R$ 7,39 bilhões. Nessa categoria está o mítico Fundo Verde, possivelmente a aplicação mais conhecida do País. Obra do gênio de Stuhlberger, o fundo mistura ações, índices, câmbio e commodities agrícolas (daí o nome). De seu lançamento, em janeiro de 1997, até maio deste ano, acumulou a fantástica valorização de 2.130%. Seu patrimônio atual é de R$ 1,6 bilhão. O fundo passou quase ileso por momentos traumáticos dos últimos anos, como a desvalorização cambial de 1999 ou a eleição do presidente Lula em 2002, o que lhe deu fama de agressivo e seguro, uma rara combinação. “Além de fazer ótimas apostas, o Stuhlberger faz hedge (proteção) como ninguém, o que limita muito as perdas em momentos de stress. É isso que o diferencia de seus pares”, elogia um especialista em avaliação de fundos que prefere não ser identificado.

Outro diferencial da Hedging-Griffo é sua clientela de pessoas físicas de alta renda. Normalmente, os maiores clientes das gestoras independentes são fundos dos grandes bancos, que compram quotas de hedge funds. Na HG é diferente. Só o Verde tem quase 2,5 mil clientes. O HG TOP (primeiro fundo de fundos do Brasil) tem quatro mil cotistas. E há aplicações como o HG Private, com aplicação mínima de R$ 3 milhões.

Por tudo isso, a Hedging-Griffo hoje parece uma presa apetitosa para o Credit Suisse, gigante global que no Brasil administra “apenas” R$ 2,75 bilhões em fundos. No quartel-general do Pactual, em São Paulo, considera-se que o provável movimento do arqui-rival faz muito sentido como resposta à fusão com o UBS, mas não assusta. “A Hedging-Griffo é uma bela marca, tem excelentes executivos, mas é muito menor do que a gente”, diz um dos sócios do banco, que administra quase R$ 45 bilhões em recursos de terceiros, sendo R$ 30 bilhões em fundos. Por ora, tanto o Credit Suisse como a HG limitam-se a informar que não comentam “rumores de mercado”. Pelo que se sabe sobre a transação, o fator decisivo para fechar o negócio é o “ok” de Luis Stuhlberger.

Estaria ele disposto a vender a empresa que transformou em história de sucesso? “Todo mundo vende. Só depende do preço”, diz o sócio do Pactual. “Ele é um homem de negócios inteligente e sabe que não é sempre que essas janelas de oportunidade aparecem”, acrescenta. O que se imagina é um acordo nos moldes do fechado entre Pactual e UBS. Ou seja, que condicione parte do pagamento aos sócios brasileiros à sua permanência na empresa pelos próximos anos. É o procedimento-padrão quando se compram cérebros.