INSTITUCIONAL

VoltarNOTÍCIAS

Vitória da seleção
Fonte: Valor Econômico | 15/02/2011

Toda vez que o investidor quer aplicar em fundos de ações, a dúvida é sempre a mesma: como escolher o melhor gestor? Os especialistas são unânimes em dizer que a primeira coisa é ter visão de longo prazo e olhar pelo menos três anos de desempenho do fundo. Seguindo essa máxima, o escritório de aconselhamento financeiro Tag Investimentos fez um levantamento e encontrou as carteiras de ações que se saíram melhor nos últimos três anos. E, entre eles, há ganhos de até 143%, mesmo considerando o fatídico ano de 2008, quando o Índice Bovespa caiu 41,22%, e mais o péssimo mês de janeiro deste ano.

Vários superam os 50% no período. Nada mal se for levado em conta que o Ibovespa, do início de 2008 até o fim de janeiro deste ano, subiu apenas 4,21%. Um ganho que pode ser considerado pífio se comparado aos 36,69% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI, o juro interbancário que serve de referencial para as aplicações mais conservadoras). E um sinal claro também de que a seleção de ações fez toda a diferença nos últimos três anos.

Além do rendimento, o estudo levou em conta na classificação a consistência dos resultados, ou seja, não são fundos que apenas surfam as ondas do mercado, subindo nas altas e caindo nas baixas. A ideia era justamente privilegiar a consistência de ganhos, e não fundos que são os melhores de um ano e os piores do ano seguinte. E, das 230 carteiras analisadas, pelo menos as 26 primeiras são de gestores independentes, com estratégias especializadas. Nesse período, há 30 fundos com desempenho acima do CDI.

O estudo tem como base os dados da consultoria Quantum e leva em conta, além dos fundos que buscam superar o Ibovespa, as carteiras de dividendos, "small caps", IBrX ativo e ações livre.

Na lista aparecem nomes como Nest, Polo, Capitânia, BRZ, M Square, Tarpon, Rio Bravo, Dynamo, entre outros. "Na hora de investir num fundo de ações, não adianta aplicar numa carteira que bomba quando a bolsa sobe e vai mal quando a bolsa cai", diz Marcelo Pereira, sócio da Tag. "Se for somente para seguir o índice, é preferível que o investidor aplique num ETF, que cobra taxas mais baratas." Os ETFs são fundos de ações com cotas negociadas em bolsa e que, normalmente, buscam acompanhar um indicador de referência.

Para ele, antes de optar por um fundo de ações, é preciso avaliar a consistência dos resultados da carteira. "Não adianta um fundo render 100% num ano e perder 99% no outro." De acordo com o executivo, grande parte dos fundos de ações do mercado foi aberta em meados de 2007, embalados pela alta da bolsa naquele ano, de 43,65%. Por isso, o levantamento começou a partir de 2008 para que períodos completos pudessem ser avaliados, com patrimônio acima de R$ 10 milhões e taxa de administração maior que zero.

Em comum, o que se vê é que os melhores fundos listados no ranking fazem um mix entre ações mais negociadas e as "small caps", diz Pereira. São estratégias de gestão bastante calcadas em "stock picking" - procura de papéis que estejam com preço abaixo do valor considerado justo. Muitos também podem alavancar, ou seja, aplicar mais do que o total presente em carteira.

É o caso da Nest, cujo fundo de ações adota a estratégia 40-140. Isso significa que o gestor pode ficar até 40% apostando na baixa de papéis (ficar vendido) e até 140% acreditando na alta (comprado). De 2008 até janeiro deste ano, a carteira rendeu 143,46%. "Partimos de uma análise macro para definir os melhores e piores setores e, dentro deles, negociamos os papéis", diz Felipe Prata, sócio da Nest Investimentos. No ano passado, a carteira ganhou dinheiro ficando vendida em petróleo e comprada em varejo.

Depois de subir 34,79% em 2010, ante 1,04% do Ibovespa, a Nest, neste início de ano, optou por sair de setores mais sensíveis às medidas do governo para conter o consumo e apostar em educação e no segmento agrícola, afirma Prata. "Apesar das crises, deixar de comer ninguém vai, e o aumento de renda da classe C fará com que esse público comece a consumir produtos a que antes não tinha acesso."

Com uma rentabilidade de 77,21% de 2008 até janeiro deste ano, o Capitânia Equities é bastante calcado em "stock-picking", diz Ricardo Quintero, sócio da Capitânia. A busca, segundo o executivo, é principalmente por ações de grandes e médias empresas, com uma pitada de "small caps". Normalmente, entre 15 e 20 ações compõem o portfólio. No ano passado, os ganhos vieram de papéis voltados à economia doméstica como Renner, Hering e Marfrig. "Mas perdemos dinheiro com Petrobras ". Segundo o executivo, em média, a carteira mantém um papel por um período de 9 a 12 meses. "Compramos ações cujo prazo de maturação da estratégia é de, no máximo, um ano", afirma.

No caso da M Square, a filosofia de investimento é tão de longo prazo que a carteira é quase um fundo de participações, embora só aplique em ações listadas em bolsa, diz Marcos Toledo, sócio da gestora. Antes de comprar uma ação, é feita uma análise que dura de 6 a 18 meses e o papel permanece no portfólio por um período médio de três anos. "Buscamos bons negócios e não necessariamente empresas com múltiplos extremamente baratos", diz Arthur Mizne, também sócio da asset. Múltiplos são parâmetros usados por analistas para saber se uma ação está cara ou barata.

De acordo com Mizne, não é intenção do fundo ter um assento no conselho da empresa, mas a gestora procura conhecer a fundo o negócio da companhia, assim como os controladores e gerentes administrativos. Com essa visão de negócio, as aplicações acabam se concentrando mais nas ações voltadas ao mercado doméstico em detrimento das exportadoras de commodities. No ano passado, boa parte do retorno de 28,09% veio dos papéis da Odontoprev, Renner e Totvs, que haviam sido compradas há mais de dois anos. De 2008 até janeiro deste ano, a carteira acumula ganho de 60,14%.

Um dos mais tradicionais fundos de ações do mercado, o Dynamo Cougar, também aparece na lista de aplicações com retornos consistentes. Lançado em setembro de 1993, a carteira será reaberta para novos investimentos a partir do dia 23, pouco mais de dois anos após a última janela aberta para aplicações.

A filosofia de investimento é de longo prazo e as empresas são escolhidas pelos fundamentos, governança e potencial de valor. O fundo não segue uma orientação macro nem setorial, diz Pedro Damasceno, sócio da Dynamo. "Olhamos as empresas caso a caso, fazendo um trabalho realmente de 'stock-picking'", afirma ele. A gestora é conhecida por comprar ações e ficar com elas por vários anos, até a maturação do investimento. Em alguns casos, os papéis ficam na carteira por mais de 10 anos, conta Damasceno, sem querer detalhar as aplicações. "Os retornos são resultados de investimentos realizados em anos anteriores."

Segundo informações de janeiro presentes no site da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o Cougar mantinha 13% de sua carteira em ações preferenciais (PN, sem direito a voto) da Itaúsa. Mantinha também papéis do Itaú Unibanco, Petrobras, Gerdau, além de aplicações no exterior.