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Pessoa física em baixa na bolsa

Fonte: Valor Econômico | 08/09/2014 | Beatriz Cutait

O investidor pessoa física dá mostras de que está cada vez mais distante do mercado acionário. Pelo menos sua participação direta nas companhias expressa um vínculo mais fraco com as principais companhias da bolsa brasileira. Levantamento do Valor realizado em parceria com a provedora de informações financeira Quantum revela que 49 das 94 empresas que compõem atualmente o índice IBrX, que reflete o retorno de uma carteira de 100 ações, viram sua base acionária formada por pessoas físicas diminuir de um ano para cá.

A Eletropaulo lidera o ranking em termos percentuais, com uma queda de 73% no número de investidores individuais neste ano na comparação com a base de 2013. Em seguida, aparecem BR Properties (-49,3%) e Equatorial Energia (-36,6%). Chama a atenção que, da dez empresas que mais perderam pessoas físicas, quatro são do setor elétrico, que costumava figurar entre os preferidos pelo investidor em busca de dividendos. A perda de atratividade do segmento começou em setembro de 2012, quando foi anunciado o mais agressivo pacote de medidas para a redução do preço da energia já feito no país, via publicação da Medida Provisória (MP) 579.

Do lado positivo, a companhia que mais angariou pessoas físicas neste ano na comparação com 2013 em termos percentuais foi a Multiplus, com aumento expressivo de 230,2%, mas por ter partido de uma base menor, de 702 pessoas físicas em 2013, para 2.318. A ação da companhia registra ainda, desde o início de 2011, valorização de cerca de 35% na bolsa. Kroton vem em seguida, com aumento de 77,8% no número de pessoa física na base de investidores de um ano para cá. Vale destacar que os papéis da empresa de educação subiram mais de 73% em 2013 e mais 70% neste ano.

Eneva (58%) é a terceira colocada no ranking de companhias que mais atraíram investidores individuais, apesar de amargar queda na bolsa desde o ano passado - em 2011 e 2012, contudo, a companhia alcançou altas expressivas, superiores a 70% em cada período. A lista conta ainda com Ambev (47,9%), tida como uma empresa defensiva pela alta previsibilidade de geração de caixa, além de Souza Cruz (40,8%), que atrai pela política que privilegia a distribuição de dividendos.

Ao considerar 2011 como base, o número de companhias que perderam pessoas físicas como acionistas cai para 44 de um universo de 100. A Eletropaulo também lidera esse ranking, com queda de 69,4% no número de investidores individuais no período, seguida por JBS (-63,4%) e Cyrela (-56%).

Na direção oposta, Taesa, que atua no segmento de transmissão de energia (menos afetado pelas medidas do governo), despontou como a empresa que mais angariou pessoas físicas como acionistas no período, com um total que passou de 193 em 2011 para 2.819 investidores neste ano. No período, a valorização da empresa na bolsa supera os 273%. Estácio Participações ocupa a vice-liderança com uma base que subiu de 351 para 2.880 investidores. Os papéis da companhia de educação também acumulam alta expressiva, superior a 220% desde 2011.

O levantamento baseou-se nos Formulários de Referência das companhias, com exceção de Eletrobras, que utiliza a presença nas assembleias gerais como base para contabilizar as pessoas físicas.

Já a lista das empresas mais populares seguiu praticamente intacta ao longo dos últimos anos. Hoje, apenas nove companhias têm mais de 100 mil investidores individuais em sua base, uma a menos que em 2011. O setor de telecom segue com as três primeiras posições em número de pessoas físicas, com Telefônica, que reúne 1,8 milhão de indivíduos; Oi, com 1,7 milhão; e TIM, com 1,3 milhão. A popularidade do setor é resquício dos antigos planos de expansão, quando a compra de uma linha telefônica dava direito a receber ações das companhias.

E apesar da redução da expressividade do investidor individual em sua base, o segmento financeiro também continua na dianteira, com Banco do Brasil (com 335,2 mil), Bradesco (327,4 mil) e Santander (164 mil). As "blue chips" Petrobras e Vale seguem entre as empresas mais populares, apesar do movimento de saída de pessoas físicas de suas bases de acionistas. A petroleira, que nos dados deste ano contava com 279 mil pessoas físicas, em 2011 tinha mais de 362 mil investidores individuais. Já a mineradora viu sua base de pessoa física passar de mais de 182 mil investidores em 2011 para os atuais 147 mil. Esse números não consideram os investidores por meio de fundos do FGTS, criados na década de 2000. A Cemig está na nona posição, com 121,5 mil investidores

O levantamento mostra ainda que cerca de um terço das empresas do IBrX (33 companhias) têm hoje menos de 5 mil aplicadores pessoas físicas. E, dentre as novatas, BB Seguridade responde pela 16ª posição no ranking de popularidade, com 42,6 mil pessoas físicas, enquanto Smiles está na "lanterninha", com apenas 484.

É verdade que o desempenho do mercado nos últimos anos não têm ajudado a aumentar o interesse dos investidores pela bolsa brasileira como um todo. Desde o fim de 2010 até agosto deste ano, a representação da pessoa física no volume financeiro do segmento Bovespa caiu de 20,5% para 15,9%. O total de contas passou de 610,9 mil para 551 mil, muito aquém dos 5 milhões um dia ambicionados.

Um perfil de investidor despreparado, com pouco conhecimento do mercado financeiro, pode estar por trás do movimento visto nos últimos anos, que não se evidenciou quando os tempos eram outros e a bolsa só dava alegrias. Há quem defenda que o pequeno aplicador deveria começar a atuar principalmente via fundos de ações, e o próprio mercado cobra mais informações das empresas para difundir o acesso.

Nem sempre os investidores pessoas físicas conseguem responder prontamente à dinâmica do mercado. Dois exemplos distintos dão sinais do comportamento do pequeno aplicador. Do início de 2011 até o dia 18 de agosto, a ação da Cielo foi a que apresentou a maior alta no IBrX, da ordem de 315%. O papel subiu em todos os anos desde então, mas o desempenho não bastou para a pessoa física, que passou de 13.556, em 2011, para 12.349, neste ano.

Já a mineradora MMX, do empresário Eike Batista, mostra trajetória oposta. Seus papéis caíram 98,9% desde o início de 2011, com variação negativa em todos os anos desde então. Mas ainda assim a fatia do público de varejo em sua base acionária cresceu de 14.910 para 17.176 aplicadores.

Para o presidente do conselho de administração do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (Ibri), Geraldo Soares, juro alto, incertezas econômicas e o marasmo mais recente do mercado, em grande parte percebido pela redução do número de ofertas públicas iniciais de ações, estão por trás do menor interesse da pessoa física.

Mas há também questões estruturais que pesam sobre o desenvolvimento da bolsa. "Há um problema gravíssimo de não termos uma cultura de mercado de capitais nesse país. É um enorme problema que só vai mudar com movimentos grandes de IPOs, redução de juros e com o mercado falando cada vez mais com a população brasileira", afirma.

A maior frequência de reuniões com investidores e interação via redes sociais podem ajudar nesse processo, segundo Soares, que ressalta ainda a necessidade de transparência, prestação de contas e divulgação de estratégia pelas empresas. Mas, na sua visão, as companhias não têm se empenhado nessa função.

Matheus Rossi, diretor jurídico do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), ressalta que a governança é um dos principais vetores de incentivo à participação em bolsa. "Quando os bancos saem com uma oferta do segmento diferenciado, eles passam uma mensagem para esse investidor de maior transparência. Em tese, a empresa é de boa qualidade."

Em sua visão, o público que está no planejamento estratégico das empresas poderia ser melhor trabalhado e, assim como Soares, defende mais transparência, acesso a informações, prestação de contas e responsabilidade dos administradores perante os acionistas. "A política de relacionamento com o mercado tem que contribuir para essa formação do investidor", diz.

Para Mauro Cunha, presidente da Associação dos Investidores do Mercado de Capitais (Amec), a aplicação direta em bolsa não é a melhor via de acesso ao mercado de capitais pelo pequeno investidor. Ele se mostra preocupado com a representação do mercado de maneira geral, o que inclui pessoas físicas, fundos de ações ou de pensão. A menor demanda, diz, encontra justificativas de ordem cultural, institucional, de distribuição dos produtos financeiros e também decorre das perspectivas de proteção dos acionistas.

"Nos poucos casos em que a participação direta ocorre há destruição de valor por problemas até de eficácia da regulação. Você espanta o investidor", afirma. Para Cunha, as pessoas começaram a investir mais em bolsa após a criação do Novo Mercado não pelas expectativas macroeconômicas, mas porque se sentiram protegidas. "Hoje, você começa a ver um desmonte de certas proteções", diz, referindo-se ao caso recente envolvendo a Oi e seu aumento de capital.

O presidente da Amec ressalta que não existe um número ideal de investidores pessoas físicas dentro de companhias abertas, mas defende a pluralidade. "O que importa é ter investidores com características diferentes para que não funcionem como uma manada. Isso gera diferença de opinião, que gera liquidez", comenta.