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Gestores começam a aumentar alocação em bolsa

Fonte: Valor Econômico | 15/09/2017 | Adriana Cotias

Os fundos de investimentos têm ampliado, sistematicamente, a alocação em ações. Entre os multimercados, nomes como Adam Capital, Canvas Capital, Paineiras Investimentos e Canepa são algumas das gestoras que passaram a direcionar uma parcela maior do patrimônio para esse tipo de risco.

A Adam, por exemplo, teria elevado em 10% a fatia em ações de seus fundos Macro e Advanced, para uma posição final de R$ 1,3 bilhão. O Paineiras, por sua vez, estaria com 40% do patrimônio de seu fundo multimercado macro, de R$ 1,2 bilhão, comprado em bolsa via derivativos, aponta um alocador que preferiu não ser identificado.

O diretor da Adam, André Salgado, confirma ter elevado a posição em bolsa brasileira, após diminuir de maneira considerável a parcela em juros no Brasil, mas evita detalhar o tamanho da alocação. "Como operamos o Ibovespa futuro, o valor da posição é relativo, devido a alavancagem natural do mercado futuro", diz.

A Canvas Capital, que até o evento Temer/JBS em maio tinha uma estratégia em ações mais voltada para arbitragem, buscando ganhar com a diferença de preço entre ações, aumentou sua aposta direcional em bolsa, conta Felipe Niemeyer, o sócio responsável pela área de relações com investidores da gestora.

"Parte disso vem do fato de a gente achar que o crescimento pode surpreender. A economia tem se mostrado mais resiliente, conseguiu destoar do cenário político", diz. Ele cita que a inflação controlada tem permitido ao Banco Central (BC) prosseguir no seu objetivo de alívio monetário, o que, combinado com a reação da atividade e um cenário externo favorável a emergentes, tem permitido ampliar a alocação em bolsa.

Os fundos de ações também elevaram a posição em bolsa, após o tombo de 18 de maio do Ibovespa, no episódio do vazamento da gravação de conversa entre o empresário Joesley Batista e o presidente Michel Temer, assinala David Kim, da gestora de patrimônio More Invest. A parcela chegou a uma média entre 70% e 75% do patrimônio - a diferença é caixa - e, com o rali do Ibovespa entre junho e julho, muitas carteiras ficaram com uma exposição perto de 90%. Em captação, porém, esses portfólios ainda estão devendo, com resgates de R$ 854 milhões no ano, como resultado dos fortes saques de junho, pós-JBS, de R$ 3,7 bilhões.

Segundo Kim, o risco bolsa atualmente "é o melhor cavalo" entre os ativos brasileiros, com chances mais promissoras do que as posições em juros e câmbio. Com a percepção de que o Brasil voltará a crescer no ano que vem, em meio à queda da Selic, é de se esperar que as companhias listadas na B3 observem um incremento nos seus lucros. "Tem muita capacidade ociosa, as empresas não precisarão aumentar investimentos para ganhar margem e elevar receitas, e essa combinação vai virar lucro para as empresas", diz. "Há uma demanda estrutural por bolsa, pois a percepção é que o Brasil vai ter uma Selic mais baixa do que no governo Dilma."

Kim sustenta que a posição técnica do mercado em juros e câmbio é ruim, com muitos investidores com exposição parecida (comprada) nesses riscos, com prêmios muito estreitos. E se o dólar, porventura, sair dos trilhos e se valorizar ante o real, a bolsa, mais atrasada quando cotada na moeda americana, tenderia a manter o nível atual, ao funcionar como um "hedge" para algumas posições.

A Canepa Asset Management tem, gradativamente, aumentado a exposição em bolsa em seus multimercados por meio da compra do Ibovespa, opções e alguns papéis específicos, segundo o sócio-gestor da casa, Alexandre Póvoa.

Conforme relata, a gestora fez, há cerca de dois meses, um estudo que apontava o preço justo do Ibovespa em 70 mil pontos, assim que a aversão a risco e os juros permitissem uma NTN-B longa (2050) a uma taxa menor, entre 5,25% e 5,50%. Passada essa etapa, se o cenário fizesse essa NTN-B chegar em torno de 4,75% (abaixo dos atuais 5,10%), isso indicaria um Ibovespa perto de 85 mil pontos. "Estamos caminhando para lá", afirma Póvoa. Por essa razão, a gestora está hoje com uma posição de 20% em ações nos multimercados e com alavancagem nos fundos de bolsa que permitem essa posição.

Sinais de melhora no crescimento e uma evolução recente para um ambiente político pró-reformas têm ajudado, aponta Póvoa. "Essa análise é diária, mas é o cenário no momento se o nosso amigo coreano não atrapalhar ou não aparecer algo mais forte contra o Temer", cita, referindo-se a um possível conflito entre EUA e Coreia do Norte. Na cena local o mercado ainda deve digerir nova denúncia da Procuradoria Geral da República contra Temer.

As carteiras long-bias, que fazem arbitragem com ações e calibram o tamanho aplicado conforme a percepção de cenário, também estão mais aplicadas, pontua Alberto Gaidys, sócio da gestora de patrimônio Wright Capital.

"Quase todos estão mais comprados e alavancados em setores que se beneficiam da situação de queda de juros e aumento da atividade", diz. A leitura corrente é que a redução da Selic vai se converter em aumento "na veia" nos resultados das empresas, pelo impacto que os juros menores vão ter sobre a dívida das companhias. "E aquelas que sobreviveram aos últimos anos malditos [de retração da atividade] arrumaram a casa, e com o corte de juro vão elevar receita sem aumento proporcional de custos."

Entre os long-bias que acompanha, de um nível considerado mais neutro na casa dos 50% da carteira comprada, ele estima entre 60% e 70% a exposição atual em bolsa, na média. "Há quem esteja com até 90%, gestor que até outro dia tinha só 30%", cita.

Gaidys acrescenta que a grande razão para o otimismo decorre da liquidez global abundante que tem contribuído para corrigir os preços dos ativos brasileiros. "Até quando dura? Quem sabe. Qualquer dor de barriga lá fora pode fazer a bolsa cair." De fato, é o estrangeiro que tem capitaneado a recente correção de preços e trouxe para o pregão local R$ 13,9 bilhões neste ano até 12 de setembro. Só neste mês despejou R$ 2,9 bilhões.

Em dólar, o Ibovespa pode ainda dobrar nos próximos dois anos, de acordo com um relatório bastante otimista do Bank of America Merrill Lynch. No ano, sob essa métrica, o índice avançou 29%, para 23.861 pontos, e só nos últimos quatro meses ganhou 31%. Mas as valorizações observadas até aqui ainda estão muito aquém dos últimos ralis.

Para os analistas Felipe Hirai e Nicole Inui, entre os fatores que podem sustentar tal movimento é o crescimento do lucro das empresas em dois dígitos nos próximos anos. Mesmo com incremento estimado de 16% dos resultados em 2017, os ganhos do Ibovespa permanecem abaixo dos níveis de 2010 em termos nominais, escrevem. A projeção é que os lucros das companhias listadas cresçam 17% em 2018 e acelerem ainda mais em 2019, quando os bancos retomarem a oferta de crédito.

O posicionamento é ainda mais favorável, considerando-se que do patrimônio de cerca de US$ 1 trilhão dos fundos locais, uma fatia de menos de 4,5% está em ações, em comparação a 14% em 2010, aponta o time do BofA. Por fim, o Ibovespa também vai tirar proveito de políticas mais pró-mercado, como a melhor governança em estatais que representam 15% do mercado e são negociadas com desconto da ordem de 50%.

Levantamento da Quantum para o Valor mostra que no fim de agosto a parcela investida em bolsa pelos fundos de ações estava em 80,9%, ante 81,1% em setembro de 2016. Nos multimercados, essa proporção passou de 17,2% para 19,9%. A amostra considerou apenas fundos abertos e não restritos a investidores qualificados.

Póvoa, da Canepa, ressalva que é preciso tomar cuidado com os alardeados "recordes históricos" do Ibovespa e lembra que o atual nível dos 75 mil pontos já havia sido alcançado em maio de 2008. Só que o custo de oportunidade do CDI nesses nove anos se aproxima dos 160%, ou 10,9% ao ano. Conforme calcula, só para corrigir o Ibovespa pelo CDI, o índice deveria estar perto dos 190 mil pontos. "Se formos considerar um prêmio de risco médio de 4% ao ano, a situação seria ainda mais aterradora: o Ibovespa teria de estar em 275 mil pontos para ter compensado o chamado 'retorno exigido' para o investidor entre 2008 e 2017."

O gestor evita prognósticos de mais longo prazo, pois só consegue ter visibilidade até o primeiro trimestre de 2018. "A partir de março ou abril, é impossível fazer uma previsão, dado que as eleições vão começar a ditar as regras do mercado. Qualquer previsão é chute. Não há bola de cristal que possa antever isso hoje."

Para Ronaldo Patah, estrategista da UBS Asset Management, a bolsa deve oferecer um retorno médio de 15% nos próximos cinco anos, enquanto os ganhos da renda fixa vão se limitar a 8,5%. São esses os parâmetros com os quais a instituição trabalha para gerenciar suas carteiras, e não projeções firmes para o rumo desses ativos. Como premissa, considera que o PIB deve crescer 2% ao ano, em média, e o juro real ficar perto de 4,5%, elementos que confirmam o apelo da bolsa. Para o curto prazo, porém, o mais provável é que o Ibovespa rateie perto dos 75 mil pontos, diz.

Com a percepção de que o Ibovespa está perto do seu valor justo, a Garde Asset Management está atualmente zerada em ações na posição direcional e com 12% na estratégia long/short que oscila entre 10% e 15%, diz o sócio Marcelo Giufrida, ressalvando que as mudanças na carteira são muito dinâmicas e que amanhã a história pode ser outra. (Colaboraram Carolina Mandl e Lucinda Pinto)